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Um casal nos confins do Molocopote




Prosseguimos mais um dia de viagem pelo Jari, calmo e meandrante. Havíamos desistido de subir o rio Cuc por medo da falta de combustível. Ontem, conforme avançávamos no trajeto, ficávamos ainda mais preocupados. Mesmo que tivéssemos estimado a distância, o fato é que o tempo e a quilometragem percorrida não nos deixavam sossegados. Após navegar por oito horas, havíamos percorrido 103,2 quilômetros pelo rio Jari, mas representando apenas 46,2 quilômetros em linha reta.

Hoje, amanhecemos ainda mais preocupados e mantivemos a estratégia de assegurar que uma embarcação chegasse ao Molocopote . No entanto, por volta das 10h da manhã, nós que estávamos no batelão Flávia, com motor de 40 HP, e vínhamos com mais combustível e na frente, encontramos a catraia da Comaru, com combustível para nos socorrer.

Os tripulantes, comandados pelo Orlando, também nos asseguraram que a distância restante não era tão grande. Uma parte de nós mudou para a Comaru, os restantes se redistribuíram nos dois batelões. Finalmente, chegamos ao porto do Molocopote, por volta das 11h30. O batelão Flávia chegou uns 15 minutos depois e o Laura levou mais uns 30 minutos. Havíamos feito hoje 48,8 quilômetros, em cerca de três horas e meia, correspondendo a uma linha reta de 25 quilômetros.

O Molocopote é uma das áreas mais isoladas da Amazônia, com uma das menores densidades demográficas do Brasil. Embora estejamos a apenas uma hora e meia de vôo de Macapá, a capital do estado, levamos três dias para chegar aqui desde a última área com ocupação, o garimpo Cruzado. Segundo dados da equipe do Parque obtidos por um GPS, navegamos 217 quilômetros do Cruzado até aqui.

Em Molocopote mora o senhor Zé Maria, que vive aqui há 18 anos, e sua senhora Madalena, que está aqui há quatro anos. Ele veio para trabalhar no garimpo, quando havia outros também trabalhando. Depois ficou só. Atualmente planta mandioca, arroz e inicia também plantio de milho e feijão. Continua garimpando no rio Jari. Ele cuida de uma pista de pouso, segundo diz, por conta própria, sem receber nada por isso.

Sua moradia é bastante aprazível. São três construções: um galpão bastante agradável serve de sala e cozinha. Foi nele que se instalaram Marcelo Creão, Orlando e Edevaldo quando chegaram há dois dias e onde instalamos o nosso "escritório". Em outro galpão similar, está pendurada uma rede de casal especial, com forno a lenha e outros móveis. A terceira construção é uma casinha de um cômodo que serve mais como um depósito. Zé Maria diz que construiu as casas, mas que quando chegou já havia a pista. Ele ouviu falar que ela pode ter sido aberta nos anos 1940 ou 50 provavelmente pelos gateiros - caçadores de onça para vender a pele.

A dificuldade de acesso ao Molocopote pode ser ilustrada por uma história que nos relataram. Dona Madalena conta que, há uns dois meses, ela e o Zé Maria foram até o garimpo Cruzado para fazer farinha com mandioca doada pelos "colegas" do garimpo e comprar umas "coisinhas" - como 30 quilos de açúcar, cinco de café, dois de sabão, latas de óleo, sal e pilhas.

Ocorre que lá no porto do Cruzado o motor deles quebrou. "Chico Cabeça", um dos líderes do garimpo, os rebocou até a confluência do Jari com o Cuc, onde o motor do Chico também quebrou. Não houve outro jeito: Chico voltou dali rio abaixo para o Cruzado e Zé Maria e Madalena decidiram remar rio acima, até o Molocopote. O casal varou noites remando, parando na metade do dia com sol mais forte para dormir, fazer comida e comer. Levaram oito dias remando, carregando sacos de farinha e compras, além dos dois cachorros e do mutum Tiuí.

Diz o casal que, acima do Molocopote não há praticamente mais ninguém. Como um dos objetivos da expedição é identificar atividade garimpeira na região do parque, amanhã deveremos fazer um sobrevôo para verificar duas possíveis áreas de garimpo, chamados Ubim e Emaus, ditos abandonados. A equipe do parque nacional acredita terem vestígios de uso recente, com pistas de pouso ao lado. Se notarmos algum tipo de ocupação, então programaremos nossas atividades nos próximos dias para tentar alcançar essas áreas por água e por terra, para confirmar o que de fato existe.


Fonte: WWF - Brasil


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