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“Temos que utilizar os recursos sem esgotá-los”, diz agricultora de Cotriguaçu (MT)




Por Jorge Eduardo Dantas

O noroeste do Mato Grosso é, hoje, a última fronteira do estado que ainda não sucumbiu ao poder do agronegócio. No entanto, ali também não faltam ameaças ao Meio Ambiente e à biodiversidade. Grilagem, queimadas, desmatamento, pesca ilegal, presença mínima do poder público, baixos indicadores sociais e muita desinformação são características daquela região. No entanto, com o apoio do WWF-Brasil e da ONF Brasil, um pequeno grupo de agricultores do município de Cotriguaçu, a 950 quilômetros de Cuiabá, tem feito um enorme esforço para mudar esta realidade.

Desde o fim de 2010, nove agricultores do Projeto de Assentamento (PA) Juruena estão instalando, em suas propriedades rurais, sistemas agroflorestais (SAF’s). O objetivo ao adotar este sistema é permitir que as produções de cupuaçu, mandioca, melancia, pupunha, entre outras culturas, respeitem mínimos preceitos ambientais e garantam a sustentabilidade dos recursos naturais da região como o solo, a água e a biodiversidade. Atualmente, a maior parte dos assentados do PA – são 466 famílias, segundo a prefeitura do município – trabalha com gado extensivo e não tem cuidados relacionados à sustentabilidade.

O trabalho do WWF-Brasil, em conjunto com a filial brasileira da ONF-Internacional, consiste em dar assessoria técnica aos agricultores interessados na proposta. Desde o início das atividades, técnicos das duas instituições acompanham os agricultores, viabilizando mudas e auxiliando no manejo sustentável da lavoura. São realizadas visitas periódicas para acompanhamento e promovidos cursos para a geração de renda sustentável. A “base” dessas atividades é a Fazenda São Nicolau, onde ocorre parte das atividades em grupo envolvendo esses agricultores. 

Sistemas agroflorestais distintos

O projeto abrange uma área de 9,09 hectares espalhados em nove propriedades diferentes. O objetivo é realizar o manejo correto desses terrenos para em seguida aumentar o tamanho da área manejada. 
Ainda que com pouca idade – todos os SAF’s foram instalados há apenas dez ou onze meses – sete deles já deram retorno para seus produtores. No entanto, as produções apresentaram pouco volume e serviram principalmente para a subsistência das famílias e para a alimentação dos rebanhos mantidos por cada produtor. Os sistemas agroflorestais necessitam de um período de trabalho entre 4 a 5 anos para que possam ser avaliados adequadamente.

Mesmo assim, foi possível a comercialização de produtos para a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que já possui uma rotina de compra dos produtos vindos do PA Juruena. Transações também foram feitas com a Fazenda São Nicolau, com comerciantes do município de Cotriguaçu e com vizinhos de assentamento.

Esta comercialização gerou, para os produtores, uma renda extra de até R$ 4,8 mil. No total, foram distribuídas para as nove famílias mais de 97 mil mudas de 70 produtos diferentes, com predominância para a pupunha, café e cupuaçu. Cerca de R$ 115 mil foram investidos diretamente neste trabalho, na compra de produtos, equipamentos ou na realização de atividades como análise laboratorial do solo, aluguel de trator, compra de arame para cercas, combustível e realização de cursos e capacitações.

O trabalho recebe também o apoio do projeto Poço de Carbono Juruena e da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Agricultura, Meio Ambiente e Assuntos Fundiário de Cotriguaçu (Sama).

“Temos que ter consciência”

O casal Sílvio e Veridiana Vieira mora no PA Juruena há oito anos. Eles possuem um lote de 52 hectares intitulado “Sítio Bragança” e estão envolvidos no trabalho com o sistema agroflorestal desde o início das conversas sobre o assunto, em 2010. Em fevereiro deste ano, eles instalaram um SAF de 1,3 hectar para a produção de feijão carioca, mandioca, quiabo, cumaru e o ipê-rosa. Por conta de uma pastagem que existia ali anteriormente, o solo teve que ser preparado: foi feita ali a remoção do gado, a aração do solo e a construção de uma cerca para isolar o rebanho.

“Acreditamos que, com a implantação do SAF, temos como utilizar um espaço pequeno para obter uma renda considerável”, falou Veridiana. Uma das maiores entusiastas do projeto em parceria com o WWF-Brasil e a ONF-Brasil, ela contou que, juntamente com o marido, prioriza a qualidade de vida em detrimento do dinheiro fácil. “Ainda hoje, muitos vizinhos não entendem porque aderimos ao projeto e não trabalhamos apenas com gado. Acontece que queremos contribuir com a conservação do Meio Ambiente, queremos cuidar do solo, dos rios e igarapés que existem aqui. Nosso assentamento já teve uma área verde imensa, mas hoje não há mais nada. Temos que ter essa consciência, de utilizar os recursos sem esgotá-los”, afirmou.

“Já estava com vontade de reflorestar meu sítio”

O agricultor Roberto Eduardo Stoff, 37, foi mais um dos comunitários que aderiu ao projeto. Sua terra, batizada de “Sítio Santo Antônio”, possui 48 hectares e diversas culturas como milho, arroz, feijão, banana, café e laranja. O sistema agroflorestal foi instalado em uma área de 1,06 hectar de seu sítio e possui 23 culturas diferentes, de curto, médio e longo prazo. Ele plantou em sua fazenda amendoim, feijão-de-corda, figo, cacau, café, ingá, cumaru, garapeira, embirata, jatobá e mogno, entre outras culturas.

A adesão de Roberto ao projeto se deu de forma curiosa: considerado um dos ‘mateiros’ mais habilidosos da região, ele realiza trabalhos para a ONF Brasil há quatro anos.  Por meio do convívio com técnicos, cientistas e pesquisadores, teve contato com conceitos como REDD, mercado de carbono, conservação e reflorestamento. Ao ouvir falar sobre o projeto de SAF, ficou curioso e resolveu implementá-lo em seu sítio.

“Na realidade, por inexperiência, eu acabei tirando toda a cobertura florestal da minha fazenda. Aí ouvi falar do projeto e me interessei. Já estava com vontade de reflorestar o meu sítio, e quando tive a oportunidade de juntar a produção rural com a questão do Meio Ambiente, aderi ao projeto”, explicou. Dos 48 hectares do Sítio Santo Antônio, apenas 4 possuem cobertura florestal. O resto foi desmatado para dar lugar a pasto e lavouras. A intenção de Roberto é aumentar a quantidade de florestas em sua propriedade, sem prejudicar suas atividades econômicas.

Alternativa econômica

A diretora da ONF Brasil, Cleide Arruda, contou que a implantação de sistemas agroflorestais no noroeste do Mato Grosso é uma forma de levar os conceitos relacionados à conservação para dentro do Projeto de Assentamento. “O SAF gera uma demanda de interação social que envolve não só os assentados e agricultores, mas também os pecuaristas e as pessoas que interagem com esses produtores. É uma forma de tocar na questão do Meio Ambiente e da sustentabilidade com essas pessoas”, disse.

Cleide declarou também que a parceria com o WWF-Brasil foi fundamental para estruturar um trabalho mais consistente e sério no que diz respeito aos sistemas agroflorestais dentro do PA Juruena. “Antes deste projeto, tínhamos apenas iniciativas pontuais como doação de mudas; não havia acompanhamento técnico periódico. Mas juntos temos como enriquecer as áreas de SAF já existentes e trazer uma alternativa econômica diferente para essas pessoas”, afirmou.

A diretora explicou que as grandes dificuldades de se lidar com SAF naquela área são: a falta de informação das pessoas sobre o assunto; a dificuldade de conseguir crédito para os produtores; e a questão fundiária no Projeto de Assentamento Juruena, tido como irregular no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) por conta da invasão de uma reserva legal comunitária existente por ali em anos anteriores.

O analista de conservação do WWF-Brasil, Samuel Tararan, afirmou que a maior parte dos produtores do PA Juruena não recebe assistência técnica para o desenvolvimento de cultivos adequados ao noroeste do Mato Grosso. “A maioria replica práticas de suas regiões de origem, como o Sul do País. Em pouco tempo a terra não produz mais e os produtores recorrem à pastagem, já que o gado ali é considerado uma poupança segura”, disse o especialista.

Os SAF’s, explicou Samuel, surgem como uma alternativa de melhoria na produção, da qualidade de vida das comunidades e das formas de organização social que gerem acesso aos mercados. “Por isso, durante a concepção deste projeto, buscamos produtores dispostos a adotarem modelos de sistemas agroflorestais para servirem de referência a seus vizinhos”, explicou o analista.
 


Fonte: WWF - Brasil


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