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Reserva do Iratapuru antenada com o mundo




Por Nathália Clark

A criação de unidades de conservação (UC) é uma tarefa complicada. E assegurar a gestão adequada das mesmas é tão desafiador quando criá-las, principalmente em regiões muito isoladas. Porém, as UCs – ou áreas protegidas, como também são chamadas – são muito importantes para a conservação dos ecossistemas e dos recursos naturais. Na Amazônia, cerca de 37% da redução do desmatamento se deve à criação de unidades de conservação. O WWF-Brasil, visando apoiar esse difícil trabalho de implementação e manutenção correta das unidades, assinou, na semana passada, um termo de doação de equipamento de radiocomunicação para uma unidade de uso sustentável no Amapá. 

Os aparelhos foram doados à comunidade de São Miguel do Cupixi, uma das cinco que contornam a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do rio Iratapuru (RDS do Iratapuru), no Amapá. O kit radiofônico, que já está sendo usado, inclui aparelho de rádio, antena, suporte e placa solar que alimenta a bateria, tornando o funcionamento do rádio auto-suficiente. Segundo o coordenador do Programa Áreas Protegidas da Amazônia do WWF-Brasil, Francisco Oliveira, o estabelecimento de meios de comunicação é essencial para a proteção, fiscalização e monitoramento das atividades dentro da unidade de conservação.

“Por ser uma área de difícil contato, o rádio ajuda na comunicação direta com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente, na capital, Macapá, que, por sua vez, aciona o batalhão ambiental, dando maior agilidade à fiscalização”, explicou.

O recurso para compra desse material provém do Fundo Gradual Amazônia Viva, uma parceria coorporativa entre o WWF-Brasil e a Gradual Investimentos. Parte dos recursos levantados a partir das taxas de administração do fundo de investimento é revertido, anualmente, aos projetos que o WWF-Brasil apoia na Amazônia brasileira. Qualquer pessoa, física ou jurídica, que busca retornos próximos ao CDI – ou Certificado de Depósito Interfinanceiro – em Renda Fixa, com perfil de investimento conservador, e que tenha interesse em contribuir na conservação da Floresta Amazônica pode aplicar no fundo.

Importância geológica e biológica da reserva

Com 806.184 hectares, a RDS do rio Iratapuru foi criada por meio da Lei Estadual nº 0392 de 11 de dezembro de 1997. Situada nos municípios de Laranjal do Jari, Mazagão e Pedra Branca do Amapari, a unidade tem o objetivo de promover a conservação e o uso sustentável da rica biodiversidade de que é guardiã. A reserva possui como limites a Terra Indígena Waiãpi, ao norte, o curso do rio Jarí a oeste e parte da Estação Ecológica do Jarí, ao sul.

Por interligar estrategicamente o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque à Reserva Extrativista do rio Cajari, a RDS é considerada uma área de grande importância para o Corredor da Biodiversidade do Amapá, que compreende mais de 10 milhões de hectares. Além disso, expedições à região registraram até o momento a existência de cerca de 300 espécies de aves, 125 de peixes, 105 de herpetofauna (anfíbios e répteis), mais de 80 de mamíferos (incluindo morcegos) e 20 de crustáceos.

A área é considerada de altíssima prioridade para a conservação da biodiversidade no Estado do Amapá e eleita pelo WWF-Brasil como uma das áreas de importância para a conservação da Amazônia.

Entre as centenas de espécies registradas, destaca-se a ocorrência de vários animais raros para a ciência ou ameaçados de extinção. Exemplos disso são o sapo venenoso Atelopus spumarius, somente encontrado na região, tamanduás-bandeira, ariranhas e onças-pintadas. São características da região também espécies vegetais como a castanheira, enviras, abiuranas, breus e matamatás, bem como alguns tipos de mogno.

A RDS do rio Iratapuru se localiza ao sudoeste do Amapá, na calha norte do rio Amazonas, no chamado Escudo das Guianas, região geologicamente muito antiga e biologicamente única, que compreende o norte da bacia do Amazonas. O escudo abarca, além das Guianas, parte do Suriname e Brasil. As rochas mais antigas desse escudo datam de mais de 2 bilhões de anos atrás. São chamados escudos, pois abrigam as maiores áreas de afloramento de rochas pré-cambrianas da América do Sul. É uma região geológica separada de todas as outras pelos rios Negro e Amazonas.

Uso sustentável dos recursos

A reserva, portanto, guarda sua importância na mostra significativa de fauna e flora que representam as espécies endêmicas do Escudo das Guianas, além do fato de permitir o uso sustentável desses recursos. O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) permite que famílias vivam no entorno e dentro desse tipo de unidade de conservação, a partir da exploração sustentável dos recursos naturais ali existentes.

Na RDS do Iratapuru, os moradores exploram principalmente a castanha-do-Brasil, mas também outras espécies de valor comercial, como a andiroba, a copaíba e o camu-camu; tendo ainda potencial para pesca.

Plano de manejo

Administrada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA/AP), a RDS tem sua ocupação humana estimada em 150 famílias. Elas são distribuídas em cinco comunidades localizadas no seu entorno, que vivem da extração da castanha.

O WWF-Brasil apoia a elaboração do Plano de Manejo e a reestruturação do conselho deliberativo da unidade. Em de viagens a campo, foram identificadas as lacunas de comunicação e fiscalização na comunidade de São Miguel do Cupixi. Na parte nordeste da unidade, o acesso se dá através do rio Cupixi, sendo a comunidade a mais próxima da reserva e que também possui papel estratégico para a região.

O plano de manejo irá estabelecer, entre outros aspectos, as atividades que poderão ser executadas na área protegida. O documento já está em fase de finalização e deve ficar pronto até setembro. Dentre as ações pendentes estão uma oficina de planejamento participativo, prevista para fins de agosto; e a formação do conselho deliberativo, com expectativa de concluir-se no mesmo momento.

O conselho delibera sobre a gestão da unidade, e é uma das instâncias para implementação e cobrança do que está previsto no plano. A pauta da primeira reunião do conselho será justamente a discussão e aprovação do plano. O WWF-Brasil ajudou no processo de mobilização das comunidades por meio de reuniões para escolha dos membros do conselho, e mantém o apoio aos consultores e à população do entorno.

De onde vem o nome "Iratapuru"?

O nome Iratapuru é derivado do pássaro, de nome muito semelhante, Uirapuru (Cyphorhinus aradus). O Uirapuru é uma ave nativa da Amazônia e seu nome tem origem no termo do Tupi-guarani, wirapu`ru.  Esse pássaro é cercado de lendas graças ao seu canto, considerado um dos mais belos do mundo. A espécie é territorialista e defende seu território de forma bem agressiva, utilizando o canto como forma de intimidar invasores.

O Uirapuru é também um bio-indicador de ambientes íntegros e preservados. É uma ave difícil de visualizar, pois fica em ambientes escuros, sombreados, nos sub-bosques da mata. Porém, ele se alimenta de insetos, e os procura nos galhos caídos das castanheiras. Quando os galhos pendem, abre uma brecha na floresta densa e escura, por onde passa um feixe de luz e surgem comunidades de insetos.

A comunidade que trabalha com a extração de castanha-do-Brasil na região costuma ouvir bastante o canto do Uirapuru e deu ao rio e, consequentemente, à Reserva de Desenvolvimento Sustentável, uma versão adaptada do nome.


Fonte: WWF - Brasil


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