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Projeto inédito monitora tartarugas na Amazônia




Por Bruno Taitson

Começou em abril um projeto de monitoramento de quelônios na bacia do Rio Amazonas. Foram colocados rádios-transmissores nos cascos de duas tartarugas, na região dos lagos da Ilha de São Miguel (Pará). A iniciativa, inédita na Amazônia, é executada pela Universidade Federal do Pará (UFPA) com apoio do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e do WWF-Brasil, e envolve três espécies: tartarugas (Podocnemis expansa), tracajás (Podocnemis unifilis) e pitiús (Podocnemis sextuberculata).

O objetivo do projeto é monitorar a distribuição, o crescimento, os padrões de deslocamento e as áreas de vida dos animais. Em outubro, período de reprodução das tartarugas, serão colocados rádios em cerca de 10 fêmeas, na mesma região do Pará.

O professor Juarez Pezzutti, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA, destaca a importância do monitoramento da fauna aquática na várzea. “As mais importantes informações para subsidiar estratégias de conservação das espécies são fornecidas a partir desse tipo de trabalho”, destaca Pezzutti, que coordena o projeto.

A precisa definição dos padrões migratórios dos quelônios servirá de base para diversas ações, como a fiscalização para coibir a pesca predatória e elaboração de planos de manejo. Como conseqüência, as comunidades passariam a ter o poder de decidir normas para coleta de ovos e consumo dos animais dentro de uma quota que assegura a reposição das espécies, referendadas pelo instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

A comunidade da Ilha de São Miguel participa diretamente da iniciativa, indicando com base na vivência dos pescadores a provável localização dos grupos de tartarugas, popularmente chamados de cardumes. “Como os equipamentos de rádio têm um alcance de no máximo um quilômetro, seria muito difícil rastrear as tartarugas sem as indicações dadas pelos moradores locais”, informa Pezzutti.

Acordos de pesca

A Ilha de São Miguel é uma região pioneira na construção dos acordos de pesca, hoje regulamentados pelo Ibama. Na prática, isso significa que a pesca de diversas espécies deve obedecer a uma série de critérios definidos em consenso por pescadores locais, de modo a garantir a continuidade da atividade pesqueira aliada à conservação da biodiversidade.

Os pescadores da região também foram pioneiros em trabalhos de manejo do pirarucu (Arapaima gigas). Os peixes foram monitorados por rádios-transmissores, gerando conhecimento para subsidiar as regras de manejo da espécie. A experiência ajudou no desenvolvimento do método de monitoramento dos quelônios.

Antonio Oviedo, técnico do WWF-Brasil, ressalta que a iniciativa torna possível um maior conhecimento das espécies trabalhadas e capacita pescadores para o manejo. “É importante salientar que a comunidade participa de todo o processo e se apropria do conhecimento, garantindo assim maior efetividade dos trabalhos e repartição dos benefícios”, afirma.

Ainda de acordo com Oviedo, o trabalho subsidia o monitoramento e a avaliação dos acordos de pesca. “Os pescadores adquirem maior conhecimento sobre as espécies e refinam as regras para o manejo”, declara. O WWF-Brasil, no âmbito do Projeto Várzea, apóia a iniciativa financeiramente e por meio de capacitação técnica de pescadores e instituições para a gestão participativa dos recursos naturais.

Além dos quelônios, as ações do Projeto Várzea também envolvem o manejo dos jacarés tinga (Caiman crocodilus) e açu (Melanosuchus niger) e do pirarucu, considerado o maior peixe de água doce do planeta.


Fonte: WWF - Brasil


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