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Já estamos na região amazônica




Por Cláudio C. Maretti

O dia começou bem, pois logo cedo fomos observar um ninho de harpia (Harpia harpyja), ‘gavião-pega-macaco’ ou gavião-real, como também é conhecido em alguns lugares. Apesar de maravilhosa, a atividade é um tanto arriscada, pois o ninho fica em cima de uma árvore, a cerca de 20 metros de altura, cuja subida inspira cuidados. Há ainda o risco de ataque, sobretudo da mãe em defesa do filhote. Além disso, ainda é preciso tomar cuidado para não perturbar demais, nem mãe, nem filho.

A observação foi um sucesso. Pudemos ver adequadamente essa maravilha de animal, a água mais forte e de pegada mais importante, além de envergadura provavelmente também maior do mundo. Melhor é o sinal que ela nos dá, pois habita um fragmento florestal, à beira da floresta amazônica de onde ela retira seu alimento: mamíferos de porte significativo como por exemplo, macacos.

Seguindo nesse ritmo, visitamos mais alguns fragmentos florestais na área urbana do município de Alta Floresta, infelizmente menos cuidados que os do Hotel Floresta Amazônica, onde encontramos o ninho de harpia. Mas servem bem de testemunho do que antes foi a “alta floresta”, ou “floresta alta” desta região: uma sumaúma com mais de 30 metros de altura.

Antes de sairmos, a mídia local quis conhecer as instituições, os objetivos e os participantes da expedição. “Viemos aqui mais para escutar”, disse Francisco Livino, representante da Diretoria de Ecossistemas do Ibama. “Este parque já começa com condições de ser implantado, por conta do apoio do Programa Arpa (Áreas Protegidas da Amazônia) do Ministério do Meio Ambiente”, disse Rogério Vereza, do MMA. “Não se pode mais pensar em uma área protegida que seja geria de forma isolada. É fundamental que elas façam parte da conservação e desenvolvimento sustentado regional”, afirmou Cláudio C. Maretti.

A cidade e o desenvolvimento

Alta Floresta é um município conhecido por ter sido palco de um ‘boom’ garimpeiro nos anos 70 e sobretudo anos 80. Depois veio atividade madeireira. Dessa forma, a região foi desbravada do jeito mais clássico, ou seja, em projetos de colonização, com apoio governamental, junto com desmatamento de conquista, normalmente de legalidade duvidosa, para assim dizer, Alta Floresta se desenvolveu como cidade de importância local. A cidade está localizada no extremo norte do estado de Mato Grosso, a 830 km da capital do estado, Cuiabá e conta com uma população de 77.000 habitantes. Um dia conhecida como centro do desmatamento, Alta Floresta ainda guarda alguns fragmentos florestais, mas deixou de ser o foco principal dessa atividade.

Diferente de outros trechos do Mato Grosso, é pouco provável que as plantações de soja se instalem neste local. As principais atividades são a criação de gado e a exploração madeireira.

Tecnicamente fala-se da “mineração da madeira”, representando uma atividade não sustentada, na qual são retirados os valores da floresta de forma predatória, considerando apenas uma vez. Isto é, assemelha-se a uma atividade mineireira, com extração, e sem sustentabilidade. De fato, nesta região, além da atividade garimpeira, a extração de madeira representa uma evolução com ganho temporário, sem sustentabilidade. Isso pode ser visto pela evolução da atividade, e sua migração.

Estudo do Instituto Centro de Vida (ICV – organização não-governamental de atuação local, com focos na conservação e no desenvolvimento sustentado) mostra que, segundo dados do IBGE, a extração madeireira teve uma forte queda em Alta Floresta entre 1996 e 2003, caindo de 80 para 11 mil m3/ano. No mesmo período, a produção em Apiacás, uma pequena cidade vizinha com cerca de seis mil habitantes, teve crescimento significativo, passando de 4,9 mil para 77 m3/ano. Vale lembrar que esses dados refletem apenas uma parcela dos valores reais, mas são, porém, reveladores de tendências.

Madeireiras rumo ao Norte

Isso mostra claramente a dinâmica da frente madeireira rumo ao extremo norte mato-grossense. Existiam até há muito pouco tempo cerca de 20 indústrias madeireiras em Apiacás e 15 em Nova Bandeirantes. Mas, desse total, apenas 16 (46%) estavam em atividade em setembro de 2005 – sendo que o restante foi paralisada por conta dos desdobramentos da Operação Curupira – investigação da Polícia Federal em 2005 sobre as atividades madeireiras ilegais que acabou paralisando a liberação de Autorizações para Transporte e Comercialização de Produtos Florestais (ATPFs). Ou seja, há uma dinâmica de crescimento e decadência –em ‘boom’ – que não deixa muita coisa nos locais como desenvolvimento duradouro.

Apiacás

Apiacás parece uma cidade de faroeste em decadência antes de ter chegado em algum nível importante de desenvolvimento e qualidade de vida. A cidade foi originada de um projeto de colonização do Indeco (Instituto de Desenvolvimento do Centro-Oeste), em 1988, tornando-se município emancipado alguns anos mais tarde, em 1993. Porém, o crescimento se deveu essencialmente à atividade garimpeira entre 1985 e 1992. Com a queda do garimpo, a atividade madeireira se instalou com mais vigor. Assim, mostrou o crescimento indicado acima.

No entanto, praticamente toda a atividade era ilegal e esta região foi palco de uma operação de fiscalização e controle de vários órgãos, incluindo Polícia Federal, Ministério Público e Ibama – a chamada Operação Curupira –, que descobriu várias irregularidades, prendeu gente e gerou um bloqueio nos processos de autorização da exploração florestal por algum tempo. O secretário municipal de Indústria, Comércio, Turismo e Meio Ambiente diz que dos cerca de 14.000 habitantes do município (pelo menos uns 60% na zona urbana), vários milhares, mais de três mil, segundo ele, já abandonaram a cidade com o ‘bloqueio’ da atividade madeireira desde então. Ou seja, mesmo nos momentos de bonança econômica, a atividade, além de não sustentável, se baseia em situações ilegais.

É difícil imaginar que a implantação do Parque Nacional do Juruena venha provocar algum dano econômico. Ao contrário, do ponto de vista de atividades legais, o provável é que se provoque uma melhoria da situação.

Desafios

Mas difícil é explicar isso para a população local. Ela diz que diz que veio para cá incentivada pelo Governo Federal, supostamente para render um serviço à nação. “Integrar - que eles entenderam desbravar, ou desmatar - para não entregar” era o lema na época da ditadura. Eles sempre se sentiram abandonados pelo Estado e, por isso, se acostumaram com atividades ilegais. Na visão deles, agora vêm os chamados “ambientalistas” (misturando governo, Ibama, ONGs etc.) e “criam o parque”. A difícil tarefa é: como convencê-los a acreditar nesse potencial e esperar vários anos para vê-lo se realizar?

Mas difícil é explicar isso para a população local. Ela diz que diz que veio para cá incentivada pelo Governo Federal, supostamente para render um serviço à nação. “Integrar - que eles entenderam desbravar, ou desmatar - para não entregar” era o lema na época da ditadura. Eles sempre se sentiram abandonados pelo Estado e, por isso, se acostumaram com atividades ilegais. Na visão deles, agora vêm os chamados “ambientalistas” (misturando governo, Ibama, ONGs etc.) e “criam o parque”. A difícil tarefa é: como convencê-los a acreditar nesse potencial e esperar vários anos para vê-lo se realizar?


Fonte: WWF - Brasil


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