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Interação com moradores e registros científicos raros para o Juruena são destaque da 2ª fase da expedição




Por Denise Cunha

Marcada pelos grandes desafios que caracterizam qualquer iniciativa em uma área ainda pouco estudada, a segunda fase da expedição científica, realizada no setor norte do Parque Nacional do Juruena entre os dias 25 de fevereiro a 15 de março, trouxe novidades e resultados que surpreenderam os pesquisadores participantes. Além de promover uma interação inédita entre os gestores e os moradores de dentro e do entorno da recém-criada unidade de conservação, a atividade possibilitou localizar espécies nunca antes encontradas na região que também ampliaram a lista de possíveis novos registros para a ciência.

A diversidade de ambientes identificados no parque está entre os bons desdobramentos da expedição. Há poucos dias para o fim da atividade, o parque, mais uma vez, mostrou guardar singularidades que não mais se esperava conseguir encontrar àquela altura. Segundo Ayslaner Gallo, engenheiro florestal do Instituto Centro de Vida (ICV) e responsável pelo estudo sobre a vegetação na expedição, mesmo com toda a tecnologia disponível, localizar-se na floresta não é tarefa fácil. Assim, nem sempre é possível encontrar em campo o que as imagens de satélite indicam existir.

“Mas, na última semana, enquanto abríamos as trilhas para dar acesso aos sítios amostrais da pesquisa, nos surpreendemos ao encontrar áreas de campinarana bem no meio da mata densa e fechada. Trata-se de um tipo de vegetação comum em solos arenosos, muito parecida com as encontradas no cerrado”, disse Ayslaner que também informou que lá foram registradas espécies que ainda não compunham o levantamento sobre a flora do parque, rendendo um número muito maior de amostras do que as adquiridas durante a primeira campanha. “Conseguimos acabar com os mais de vinte quilos de jornais, material que utilizamos para prensar as coletas que serão analisadas e confirmadas em laboratório”, afirmou.

Alguns quilômetros adiante, já no último ponto de pesquisa da expedição, Júlio Dalponte, pesquisador da Universidade Estadual do Mato Grosso (Unemat) responsável pelo estudo sobre mamíferos, voltou do campo com uma novidade. Na área do entorno, há cerca de cinco quilômetros do limite do parque, o pesquisador conseguira identificar um tabocal, como são chamados os ambientes da floresta compostos por bambus nativos da Amazônia.

As características do lugar explicam o entusiasmo. Mesmo que o caminho tenha mostrado sinais da presença constante da população local, que usava uma área próxima como acesso a um dos garimpos, a possibilidade de encontrar espécies raras e até mesmo novas naquele ambiente era muito grande.
Dante Buzzetti, ornitólogo e responsável pelo estudo sobre as aves da região, foi quem mais se animou com a notícia. O local possivelmente abrigaria espécies que só lá existem. “Estávamos tentando encontrar um tabocal desde a primeira campanha. Foi uma grata surpresa termos conseguido identificá-lo tão próximo do fim da expedição”, disse o pesquisador.

O entusiasmo não era exagero. Dante, que costumeiramente traz do campo anotações com várias dezenas de exemplares listados, desta vez trouxe uma lista composta por algumas espécies até então ainda não encontradas na região. O papagaio-de-cabeça-laranja (Pionopsitta aurantiocephala), o ferreirinho-picaça (Poecilotriccus capitalis), o arapaçu-rabudo (Deconychura longicauda), o anambé-preto (Cephalopterus ornatus) e o falcão-de-peito-laranja (Falco deiroleucus), são alguns componentes ilustres dos últimos registros do pesquisador que revelou que, entre os mais de 400 registros adquiridos durante as duas campanas, a possibilidade de haver uma nova espécie para a ciência é grande. “Mas a confirmação ainda será feita em laboratório”, explicou.

No entanto, por traz da reunião de todos esses bons resultados - que, além de ressaltarem a importância da criação e implementação do Parque Nacional do Juruena, são componentes essenciais para elaboração do seu plano de manejo - está a eficiência e flexibilidade no planejamento da expedição. Em alguns momentos as adversidades impostas pela natureza obrigaram adaptações em parte do trajeto que contemplou o segmento entre o Rio São Tomé (afluente do rio Juruena, no Mato Grosso) até o trecho inicial do rio Tapajós (no Amazonas).

Inicialmente, a segunda campanha navegaria o rio Juruena, ancorando em pelo menos dois pontos para coleta de dados e amostras. Porém, a dificuldade em encontrar áreas adequadas para atracar o barco, devido a cheia do rio, obrigou pequenas mudanças no plano. Porém, o fator que ais mobilizou adaptações no planejamento foi a quantidade assustadora de mosquitos em dois pontos do rio, próximos a sua afluência com o Teles Pires. Isso impossibilitou a permanência da equipe.

Segundo a maioria dos pesquisadores, até a respiração tornava-se tarefa complexa nessas áreas. Para se ter uma idéia do tamanho do problema, a média de repelente utilizado era de um litro por dia para tentar afastar pernilongos, “piuns” e flebotominios, um tipo de organismo que é um vetor do protozoário causador da leishmaniose.

Finalizado oficialmente no último dia 15 de março, o diagnóstico científico para a construção plano de manejo do Parque Nacional do Juruena está sendo realizado por meio de uma cooperação técnica entre Instituto Centro de Vida (ICV), WWF-Brasil e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em parceria com a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade Federal do Acre (Ufac).

Mamíferos da noite – o rato que guarda mistérios e o macaco que tem hábitos de morcego

A equipe da mastofauna, área que estuda os mamíferos, também conseguiu novidades. Na penúltima semana da expedição a equipe localizou um roedor amazônico de hábitos noturnos que é geralmente encontrado em tabocais e popularmente conhecido como rato toró, ou rato da taboca. Tão grande quanto o desejo de identificar a área de tabocal, a expectativa de encontrar o bicho também nasceu durante a primeira fase da expedição ocorrida em novembro de 2007. Após três noites inteiras de trabalho em busca do roedor, Júlio Dalponte e o piloteiro Adelson Carvalho Souza, conhecido como Baixinho, retornaram eufóricos ao acampamento após a captura bem sucedida.

Não é difícil imaginar a razão de sua localização ter sido tão desejada. Pouco se sabe sobre as duas espécies existentes na Amazônia: o Dactylomys dactylinus e o Dactylomys bolivianus que são essencialmente arborícolas. “Ainda não sabemos qual dessas duas é a espécie do animal coletado. Além disso, ele guarda outro mistério que nos intriga muito. Entre as poucas informações disponíveis sobre o animal, sabe-se que ele é associado aos ambientes de tabocais e são muito sensíveis às mudanças de ambiente a à caça, graças ao porte mediano de cerca de 70 centímetros. Mas esse indivíduo, especificamente, não foi encontrado no seu habitat original o que nos leva a crer que pode se tratar de uma espécie diferente das conhecidas até hoje”, revelou Julio.

Outro mamífero, igualmente difícil de ser avistado, também compôs a lista de registros da equipe de mastofauna. Única espécie de primatas com hábitos noturnos do mundo, o Macaco-da-noite (Aotus sp.) também foi encontrado em um dos sítios amostrais do último ponto de coleta da expedição. “Ele prefere dormir de dia, como os morcegos, e realizar suas atividades durante a noite, especialmente em fase de lua cheia”, informou Ednaldo Candido Rocha, membro da equipe de mastofauna que conseguiu avistar o animal e ajudou a viabilizar um dos poucos registros fotográficos do bicho solto na natureza, realizado por Adriano Gambarini, profissional contratado pelo WWF-Brasil que acompanhou a atividade.

Interação com locais

As reuniões abertas com moradores de comunidades localizadas no entorno e o contato com moradores que habitam áreas que compõe o setor norte do Parque Nacional do Juruena foram uma das peculiaridades que diferenciou a segunda fase da primeira etapa da expedição científica.

Considerado o primeiro contato oficial com essas populações, a atividade envolveu os principais grupos sociais, compostos por lideranças e outras pessoas representativas das comunidades, e mobilizou reações que reafirmaram o entendimento de que a criação e implementação de alternativas – que contemplam mudanças socioeconômicas essenciais e atendam tanto às condições ideais para a gestão do parque, quanto às necessidades básicas dessas populações – seria um dos maiores desafios do processo de construção do plano de manejo para a área.

As reuniões, realizadas nas comunidades Pontal (no último dia dois) Barra de São Manoel (no dia nove de março) e Colares (no dia dez de março), foram marcadas por um clima de incertezas em relação aos desdobramentos que concernem a criação de uma unidade de conservação nas proximidades da área em que residem e tiram seu sustento.

“Mudanças são sempre temidas. Estaríamos surpresos se a reação fosse de completa aceitação. Esse primeiro contato foi importante por ter sido uma oportunidade para ouvir as percepções e angústias dos moradores e também para tranqüilizá-los ao informar que sua rotina não deve mudar até que sejam levantadas alternativas que, além de garantir a manutenção de sua dignidade, também promovam melhorias na qualidade de vida deles”, declarou Roberta Freitas, uma dos quatro analistas ambientais do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio) que são responsáveis pelo Parque Nacional do Juruena e que também ministrou a reunião com os moradores.

O próximo encontro com os comunitários acontecerá em maio quando será realizado um curso de capacitação sobre associativismo e cooperativismo.

Saiba mais na página sobre a segunda fase da Expedição Cinetífica Juruena.



Fonte: WWF - Brasil


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