Aguarde...

Frente a frente com a cachoeira do Desespero




Saímos como de costume às 8 horas. Logo no princípio da viagem passamos por algumas corredeiras, que pareciam mais fáceis de atravessar. Depois de pararmos para almoçar - arroz com carne seca -, finalmente chegamos a um dos pontos mais importante da expedição: a cachoeira do Desespero. Na verdade, esse é o nome pelo qual ela é chamada hoje pelos moradores da região e pelo qual é definida em muitos mapas. Mas dizem que "os antigos" a chamavam de Macacoara.

De fato, encontramos um marco topográfico com a inscrição "C.D.F.S.N 12-10-937 Macacoara", além dos nomes dos participantes da equipe de então - "chefe Leônidas Moreira, médico Morelli e auxiliar Pombo" - e da definição "Brasil". É de se supor que, depois das andanças dos alemães por aqui, entre 1935 e 1937, um grupo provavelmente de algum órgão oficial decidiu reafirmar que este chão era brasileiro. Orlando diz que contam que eram estes os "americanos" que dizem que morreram.

Orlando tinha previsto fazer o trecho entre o Mukuru e a cachoeira do Desespero, ou Macacoara, em um dia e meio. Ele havia feito esse trecho no verão, quando o rio estava mais seco e, portanto, de mais difícil navegação. Desta vez, levamos seis horas e meia, contando as paradas. Com isso, chegamos cedo ao nosso destino, o que permitiu que alguns se banhassem e outros conhecessem o lugar.

Muitos foram mesmo aproveitar para trabalhar: é o caso dos membros da comunidade do Iratapuru, que começaram a abrir o caminho, colocando troncos cortados sobre os quais os barcos serão rolados no dia seguinte, transpondo a cachoeira. Christoph e Cristiano (Ibama), Matthew (WWF-EUA), Orlando (do Iratapuru) e outros foram instalar mais uma placa indicativa de que aqui é o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque . A decisão deles foi de colocar uma placa avisando a quem chega, subindo o rio, afastada o suficiente para não poluir esta lindíssima paisagem.

Próximo à cachoeira, dando a volta pelas pedras, quase pisei em uma surucucu, uma cobra com cabeça grande, um corpo roliço de diâmetro respeitável e uns dois metros de comprimento, com coloração entre arroxeada e amarronzada. É uma das cobras mais temidas na Amazônia, pois além de ter um veneno muito forte, tem um salto potente e não raro morde as pessoas na altura do peito ou no pescoço. No meu caso, felizmente, ela se retirou para debaixo das pedras na beira do rio, ao lado da cachoeira.

Esta cachoeira deve ter uns 15 metros de altura e centenas de comprimento. Orlando, Arraia e outros parceiros da comunidade, procurando identificar a melhor forma de atravessá-la, concluíram que terá que ser pelo seco mesmo, isto é, teremos que puxar os barcos morro acima amanhã, puxando as três embarcações com cordas e roldanas.

Orlando, com cerca de cinqüenta anos de idade, disse que essa é a terceira vez que ele passa por aqui. A primeira foi em 1972, quando ainda era criança. A segunda, guiando equipes de pesquisa mineral da CPRM, em 2001. Mas o caminho era usado antigamente, tanto pelas antigas expedições - a dos alemães e a dos brasileiros em 1937, e possivelmente uma de estadunidenses também por esses tempo -, como pelos "gateiros", caçadores de onça que vendiam a pele.

Segundo Christoph Jaster, esta cachoeira provavelmente divide o terço médio do terço superior do rio Jari. "Daqui para cima há uma mudança geomorfológica, pois abaixo há muitas corredeiras e cachoeiras, e para cima só rio meandrante", avaliou. Essa também é a opinião de Gil Mendes Sales, especialista em geomorfologia que acompanha a expedição. Dessa forma, eu entendo que esta cachoeira, portanto, representa uma "soleira", um nível de base regional.

O levantamento do meio físico, um das finalidades de nossa expedição, é muito importante para o parque nacional, afirmou o Christoph Jaster, chefe do PNMT. Ele diz que o conhecimento do meio físico, além de ser o substrato e, portanto, permitir o entendimento do meio ecológico, é fundamental para embasar o zoneamento. Serve também como conhecimento básico, pois um dos objetivos de um parque nacional é ser um local de estudos e pesquisas. Essa informação é também fundamental para educação ambiental, que deve sempre ser realizada em uma unidade de conservação, pois permite conhecer o processo histórico natural do meio ambiente nesta região, entender quais foram as condicionantes que colaboraram na organização da paisagem, entre outros aspectos.

Segundo Christoph, esta cachoeira tem potencial turístico, embora seja de difícil acesso. Talvez, se for possível desenvolver o turismo neste lado do parque nacional, seria apenas para um público selecionado pelo poder aquisitivo, que possa vir de avião. Cenicamente, é um diferencial para o parque nacional, pois não há outros atrativos importantes como esse em seu interior, embora haja em outros locais fora dele.

Ainda segundo Christoph, um parque nacional é um elo entre a população e o ambiente natural. Nele deve se desenvolver o turismo, o ecoturismo. Na verdade, recreação ao ar livre e educação ambiental. Além dessas funções, o turismo também pode gerar divisas para o parque nacional, mas mais significativo ainda é que pode ser um importante fator de desenvolvimento regional: pode gerar emprego e renda para a população local, com atividades como serviços de guias, hotelaria, gastronomia e transporte.

Diz ele: "eu acredito nesse potencial de um parque nacional em gerar desenvolvimento econômico e social associado à proteção ambiental. Existem exemplos, sobretudo internacionais que mostram que é um caminho viável. Ainda que isso não esteja tão desenvolvido no Brasil, podermos fazê-lo. Inclusive esses colegas da comunidade, que estão conosco, poderiam ser beneficiados. Eles fazem parte desse ambiente, sofreram os processos evolutivos desta região. Eles têm muita contribuição a dar, como o seu conhecimento da região. E, conosco, já estão demonstrando e aprimorando suas capacidades como guias, como pilotos, cuidando dos participantes da expedição. Eles funcionariam até como 'porta-vozes' dos ribeirinhos, em um espírito de preservação cultural, porque se desenvolveram por aqui desde que o homem começou a ocupar esta região. Algumas comunidades, como a do Iratapuru, se desenvolveram sem grandes influências externas, e isso é muito valioso".

"Para mim, se a expedição terminasse aqui, eu já estaria satisfeito, pois é um privilégio para mim. Eu nunca tinha visto uma cachoeira tão volumosa", disse Cristiano Fernandes Ferreira, servidor do Ibama, integrante da equipe do parque responsável pela fiscalização do PNMT. Segundo ele, "outros rios do PNMT, como o rio Amapari, também têm muitas corredeiras, há a cachoeira do Paulo Afonso, mas o rio Jari é a surpresa maior. É pena que seja tão longo. Seria muito bom poder mostrar isto ao público, poder abrir esta área para a recreação, mas infelizmente vai ser um espetáculo para poucos".

Segundo Christoph, é compreensível que os índios não queiram o turismo próximo de suas terras, muito menos dentro delas. Mas, sem apresentar uma solução definitiva, ele se pergunta qual seria o melhor caminho, pois mesmo que o turismo possa ser prejudicial, será sempre difícil que os índios possam ficar mais isolados, nem eles o querem. Em particular, ele acha que o Ibama, sobretudo a equipe do PNMT, têm que interagir com os índios obrigatoriamente, cooperando com eles na proteção desta área, em benefício mútuo.


Fonte: WWF - Brasil


Álbum (3)

Álbum de fotos (3)

Marcadores

Comentários



Votação no Senado é desastre iminente para o Brasil
Votação no Senado é desastre iminente para o Brasil
Organizações sociais do Rio Negro cobram a criação da Resex Baixo Rio Branco-Jauaperi
Organizações sociais do Rio Negro cobram a criação da Resex Baixo Rio Branco-Jauaperi
"Legislação ambiental não é obstáculo à agropecuária", diz produtor no Acre
"Legislação ambiental não é obstáculo à agropecuária", diz produtor no Acre
G-8 e países em desenvolvimento pressionam a favor da biodiversidade e da recuperação verde, mas não se mexem contra as mudanças climáticas
G-8 e países em desenvolvimento pressionam a favor da biodiversidade e da recuperação verde,  mas não se mexem contra as mudanças climáticas
Hora do Planeta 2013 registra apoio de 113 cidades
Hora do Planeta 2013 registra apoio de 113 cidades
Conheça a nossa Equipe
Conheça a nossa Equipe
Evento internacional discute liderança brasileira na produção de etanol
Evento internacional discute liderança brasileira na produção de etanol
Água Brasil lança com presidenta Dilma jogo educativo para catadores
Água Brasil lança com presidenta Dilma jogo educativo para catadores
Soja adota salvaguardas ambientais
Soja adota salvaguardas ambientais
WWF- Brasil e Sol Meliá engajados pela conservação ambiental
WWF- Brasil e Sol Meliá engajados pela conservação ambiental
“Temos que utilizar os recursos sem esgotá-los”, diz agricultora de Cotriguaçu (MT)
“Temos que utilizar os recursos sem esgotá-los”, diz agricultora de Cotriguaçu (MT)
Maestro brasileiro chama atenção em Nova Iorque
Maestro brasileiro chama atenção em Nova Iorque
Brasileiros esperam mais proteção para o Cerrado
Brasileiros esperam mais proteção para o Cerrado
Parlamentares reconhecem potencial das unidades de conservação no combate às mudanças climáticas
Parlamentares reconhecem potencial das unidades de conservação no combate às mudanças climáticas
2º Seminário Internacional de Marketing Relacionado a Causas
2º Seminário Internacional de Marketing Relacionado a Causas
Escolas municipais de Campo Grande (MS) têm carne orgânica na merenda
Escolas municipais de Campo Grande (MS) têm carne orgânica na  merenda
Empresas assumem papel primordial na mobilização para a Hora do Planeta 2010
Empresas assumem papel primordial na mobilização para a Hora do Planeta 2010
Líderes mundiais debatem futuro das florestas em cúpula no Congo
Líderes mundiais debatem futuro das florestas em cúpula no Congo
WWF-Brasil ganha apoio do restaurante ViaSete
WWF-Brasil ganha apoio do restaurante ViaSete
Oficina mapeia cadeia produtiva do açaí
Oficina mapeia cadeia produtiva do açaí