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Expedição Juruena-Apuí: 180 anos depois da Langsdorff




Integrantes da expedição Jurena-Apuí vivenciam em seu dia-dia os mesmos perigos e belezas descritos nos diários de viagem de Langsdorff (1826-29). Desde o início da etapa fluvial, em Salto Augusto (MT), os roteiros das duas aventuras se cruzaram, trazendo a tona um passado no qual a natureza é a principal protagonista e o rio Jurena continua a desafiar os sentidos dos que se atrevem em navegá-lo.

O isolamento gerado pela complicada transposição do rio preservou as paisagens e fez com que a passagem do tempo pareça não existir para a região. As águas cristalinas, praias de arreias brancas, matas fechadas e a possibilidade de encontrar espécies endêmicas, também dão um sentido maior as dificuldades de vencer as lendárias corredeiras.

Talvez venha deste componente a razão pela qual a força das águas do Juruena tenha sido exaustivamente descrita pelos exploradores da expedição Langsdorff. “Podem-se molhar os pés na espuma da margem, não alcançando a vista nada mais do que alvacento barátro no qual se engolfa o rio com estronde da trovoada, espadanando-se as ondas, rugindo em massas animadas que se embatem, como a querendo devorar-se umas às outras e produzindo vapores condensados que, erguendo-se aos céus em seis colunas, a modo de bulcões rutilantes de alvura, de pronto se dissipam nos ares”, relatou o artista e pesquisador Hércules Florence.

Além de impressionante, e muitas vezes intransponíveis, esse movimento constante da água nas pedras é responsável por um dos elementos chaves para explicar o alto endemismo de espécies. Isso porque o vapor conseqüente das inúmeras corredeiras propicia uma grande umidade na mata ciliar (floresta ombrofila ciliar), criando um habitat diferenciado das demais regiões da Amazônia meridional.

As dificuldades de acesso também auxiliaram na conservação de espécies de alto valor comercial, como a castanha-do-Brasil (Bertholletia excelsa), ou tucuri. O interesse em obter mais informações sobre a castanheira foi uma das razões que levou o naturalista russo à Amazônia, como apontam os relatos dos diários de viagem. “Muito se regozijava o sr. Langsdorff com a idéia que ia ver o tucuri. Pelo que dizia, era árvore quase desconhecida na Europa tendo tido muitas expressas recomendações de sábios para colher todas as indicações possíveis a seu respeito... Esta árvore, que se eleva acima de qualquer outra e cujos ramos e expessa folhagem coroam um cauleto reto como uma coluna, e de grossura a não poder ser às vezes abarcado por cinco homens.”

O final do trecho de corredeiras e saltos, depois do encontro dos rios Jurena e Teles Pires, marcará o desencontro dos roteiros das duas expedições. Após esse ponto da viagem a comitiva da expedição Langsdorff seguiu pelo rio Tapajós em direção a Santarém (PA). Já os integrantes da Expedição Jurena-Apuí tomam rumo contrário. Descerão o rio Sucunduri até o ponto mais próximo da cidade de Apuí (AM).

Turismo

“Do outro lado da queda, vê-se a ilha à qual já me referi. Rodeada de líquidos sorvedouros, de ondas tão altas como as do oceano, por todos os lados inacessíveis... Pé humano ainda não a pisou. Pisá-la um dia, quando a civilização tiver penetrado nessas regiões? É o que se pode afirmar com toda a segurança”, divagou o artista Hércules Florence, ao contemplar locais de rara beleza e acessos proibitivos na época.

A certeza de que um dia o homem votaria a região parecia clara para esses exploradores. Hoje, uma grande faixa do curso do Juruena faz a divisa de dois Parques, o estadual do Sucunduri (AM) e o nacional do Juruena (MT). E as mesmas corredeiras apontadas como o tormento dos viajantes, são vistas como locais potenciais para a prática de esportes (rafiting) e o ecoturismo. E, apesar da atual ausência de infra-estrutura, as indagações de Florence parecem certas. Após a elaboração do plano de manejo desses parques, um dia o acesso poderá ser facilitado. Mas, desta vez ao invés de exploradores, turistas poderão conhecer as belezas da região. Protegidas hoje por um mosaico de unidades de conservação.


Fonte: WWF - Brasil


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