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Equipe de comunicação passa um dia e uma noite no garimpo




Por Ana Cíntia Guazzelli, com Cláudio Maretti

Ainda como atividade da primeira fase da expedição, que se encerraria hoje, 17, com o início da descida do rio Juruena, nossa visita ao garimpo Juruena estava prevista para ontem, sexta-feira, com o principal objetivo de dar continuidade ao processo de interação com os atores sociais locais, neste caso, os garimpeiros, que estão instalados a cerca de dez quilômetros ao limite sul do Parque Nacional do Juruena, portanto em sua área de entorno, mas com grande influência nas águas do principal rio do parque nacional. A primeira equipe a sair de Apiacás foi a de comunicação: fotógrafo, cinegrafista, auxiliar, jornalista alemão e eu. Voamos por cerca de 35 minutos em um monomotor.

A expectativa era grande. Ninguém sabia o que nos aguardava, já que o garimpeiro com quem tínhamos feito contato durante a pré-produção da expedição e que autorizou nossa entrada na área, o Raimundinho, estava envolvido com o deslocamento dos nossos 1.400 litros de gasolina, 400 litros de óleo diesel, voadeiras e motores, mantimentos, cozinheiras e piloteiros em sua chalana – pequena embarcação de fundo chato, usada no tráfego em rios e igarapés – que serão utilizados a partir de amanhã, durante a etapa fluvial da expedição. Nossa única segurança era o piloto, Plínio, experiente e muito conhecido naquele garimpo, que nos acompanhou até a pista de pouso e nos apresentou aos cerca de 10 garimpeiros que chegaram na carroceria de um velho caminhão para nos recepcionar.

Violência, orgia e muito desperdício de dinheiro sempre estiveram associados à imagem dos garimpos. Com o Juruena não foi diferente. Mesmo tendo se iniciado muito antes, e passado a crescer por volta de 1985, a sua produção poderia ter tido alguns picos, talvez um ainda na década de 1980, mas outro nos anos 1997 a 99. Diz-se na região que, no auge de sua produção, até 500 Kg saíam por mês do garimpo, e circulavam naquela área mais de 10 mil pessoas - alguns dizem que até por volta de 20 mil pessoas habitavam a região. Trinta vôos diários transportavam aventureiros de diversas regiões do Brasil, que todos os dias ali desembarcavam em busca da tão sonhada riqueza. A cobiça pelo ouro também gerava constantes conflitos, que não raramente terminavam em mortes.

Foi com esta visão do passado que chegamos ao garimpo Juruena e logo nos vimos rodeados por cerca de 20 garimpeiros curiosos e de certa forma ressabiados com a presença de nossa equipe. A conversa fluiu em torno, principalmente, do objetivo de nossa expedição. Logo percebi que ganhava a confiança deles e em pouco tempo já conversávamos sobre suas condições atuais de vida.

Alguns ali presentes moram no garimpo há mais de 20 anos. Suas histórias são semelhantes, sempre envolvidas com movimentações de grandes somas, ilusão de poder e a certeza de que a vida farta nunca teria fim. Diversos relatos me revelaram situações inusitadas, principalmente relacionadas ao desperdício de dinheiro, como a contratação de um vôo somente para transportar um chapéu da moda, ou ainda a vez que o mesmo garimpeiro resolveu pagar o frete de um avião para retirar do garimpo uma leitoa, somente por ter olhos azuis e merecer, no seu entender, uma moradia melhor. Contaram também que em uma das várias festas ali promovidas, um homem arrebatou no leilão um frango por 100 gramas de ouro e ali mesmo o ofereceu para seu cachorro, Rex. Hoje, esta quantia seria equivalente a R$ 4.000.

A diversão não era só local. Cantores nacionais como Zé Ramalho, Ovelha, Rita Cadilac e Odair José já fizeram seus ‘shows’ no garimpo Juruena. A entrada custava 5 gramas de ouro e a bilheteria chegava a até 3 quilos do metal, que, segundo Pedro Luiz Dias, era quase toda repassada para os artistas.

Hoje, a realidade é antítese do passado. A produção atual deles corresponde, conforme Mauro Rezende Silva, a 15% do que foi no tempo áureo da extração. No local, não vivem mais do que 200 pessoas. Aqueles que insistem na permanência garantem que não têm para onde ir, nem a quem recorrer. Reconhecem que trabalham na ilegalidade e lamentam a falta de titularidade das terras onde vivem. Não pouparam. Não investiram no futuro e se sentem desprotegidos e amedrontados com a expansão das fazendas vizinhas, que estão com suas cercas cada vez mais próximas da área do garimpo.

De um modo geral, o ouro atrai gente de vários lugares, mas não raro se concentram pessoas vindas do Ceará e sobretudo do Maranhão. Essas pessoas freqüentemente circulam entre diferentes locais de garimpo, às vezes trocando de minério, mas indo e vindo conforme a produção. Neste caso, os poucos que restaram já estão “envelhecendo com o garimpo”, e não querem mais ir se arriscar, procurando outras terras, outras riquezas, outras aventuras.

A criação do Parque Nacional do Juruena também os deixou preocupados. “Tudo o que não queremos é sermos expulsos desta terra. Não tem mais tanto ouro, mas também não temos para onde ir”, lamentou Antonio José de Souza, de 72 anos, há 23 morando no mesmo local. Eles não sabiam que a área do garimpo não foi abrangida pelos limites do parque e por isso agradeceram nossa visita.

A implantação do parque nacional deverá se preocupar com esse problema que representa o garimpo do Juruena. Por um lado, é fundamental dar alguma solução de recuperação e evitar atividades danosas no futuro, para que não haja dano ou prosseguimento de dano à natureza protegida na unidade de conservação. Por outro lado, é responsabilidade dos poderes públicos pensar no futuro dessas pessoas. Assessoria para melhoria da sua atividade, evitando mais danos ambientais e à sua saúde; fomento à sua sedentarização com atividades agro-florestais familiares; treinamento de alguns que conhecem a região e, sobretudo, o rio com suas corredeiras... – essas são algumas das opções que a elaboração do plano de manejo do Parque Nacional de Juruena deverá estudar.


Fonte: WWF - Brasil


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