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Em Apiacás (MT), WWF-Brasil une conservação e produção rural




Por Jorge Eduardo Dantas

A produção de seis toneladas de melancia e 1 tonelada de abóbora em apenas nove meses de trabalho, no espaço de meio hectare de terra, é um dos mais expressivos e importantes resultados do projeto Sistemas Agroflorestais em Apiacás, desenvolvido no norte do Mato Grosso pelo WWF-Brasil. O produtor-ponto focal deste trabalho, Daniel Lorestes da Silva, 46, obteve uma renda de R$ 6,4 mil com esta produção e já comemora o retorno do investimento feito em sua propriedade.

O projeto Sistemas Agroflorestais em Apiacás teve início em junho de 2011 e seu objetivo foi divulgar, naquela região, os benefícios dos sistemas agroflorestais (SAF’s) em regiões tropicais. Para alcançar esta meta, o WWF-Brasil investiu na construção de um modelo demonstrativo, que pudesse servir de exemplo aos produtores rurais da área, e na realização de um treinamento técnico em sistema agroflorestais, cujo objetivo foi capacitar os agricultores locais a trabalhar e lidar, na prática, com este conceito.

Os sistemas agroflorestais (SAF’s) são considerados soluções sustentáveis para a agropecuária nas regiões tropicais. Eles são caracterizados pela associação de árvores, arbustos, cultivos agrícolas e possível criação de animais de maneira simultânea ou em intervalos de tempo regulares num só local.

Com a presença de várias espécies diferentes num mesmo perímetro, o SAF reproduz o ecossistema florestal e reduz os danos ambientais às árvores e aos solos da região em que é implantado - além de diversificar a produção rural e a renda do agricultor.

De porta em porta

Para servir de modelo demonstrativo, foi escolhida uma área de 0,5 hectare na propriedade do seu Daniel – a fazenda “Morro Adeus, Mamãe”, situada na área rural do município de Apiacás, a 953 quilômetros de Cuiabá, no extremo norte do Mato Grosso. Foram plantadas, na área compreendida pelo modelo demonstrativo mudas de melancia, açaí, coco, laranja, abacaxi, banana, cupuaçu, entre outros produtos.

O sistema escolhido para a implantação foi o de “SAF sucessional produtivo”, ou seja, um sistema agroflorestal que contempla um rodízio de produtos - de modo que a área tenha produção e gere rendimentos durante vários meses do ano. Também foram realizados uma série de procedimentos para preparar a terra e assim otimizar sua produção: aplicação de adubo orgânico e biofertilizante, construção de cercas e abertura de valas, por exemplo.

Como resultado, no primeiro ano de trabalho foram produzidas 6 toneladas de melancia e 1 de abóbora – e nos primeiros três meses já era possível contabilizar resultados. A maior parte desta produção foi vendida para pequenos comércios locais, com seu Daniel batendo de porta em porta nesses mercadinhos. Outra parte foi vendida à Associação Regional dos Apicultores da Amazônia Apiacaense (Arapama) e uma pequena sobra ficou para consumo interno na fazenda do agricultor.

Filha de Seu Daniel, a turismóloga Patricia Sapatini da Silva, 18, acompanhou de perto o processo de implantação do Sistema Agroflorestal na fazenda do pai. “Já tínhamos, em nossa propriedade, um SAF feito apenas com açaí e preparado do modo tradicional. Foi possível, após alguns meses, comparar os resultados e ver como a questão da sustentabilidade, aliada à geração de renda, é útil e ajuda bastante no incremento da produção”, disse.

Educação e sensibilização

Além da implantação do modelo demonstrativo, o projeto do WWF-Brasil também realizou cursos técnicos de SAF, com o objetivo de sensibilizar os moradores da zona rural de Apiacás para a adoção de sistemas agroflorestais em suas fazendas. O curso foi realizado em etapas – ocorridas em agosto e novembro de 2011 e março de 2012 - onde foram discutidos temas como “Homem e Natureza”, “Conceito de SAF”, “Fundamentos, Implantação e Manejo de Sistemas Agroflorestais”.

No total, 20 produtores participaram do curso promovido pelo WWF-Brasil e a empresa Mapsmut. As aulas teóricas e praticas foram realizadas no sitio “Morro Adeus, Mamãe”, de propriedade do seu Daniel. Durante a capacitação, os participantes tiveram contato com as bases teóricas dos SAF’s e, por meio do modelo demonstrativo instalado na fazenda, com a prática da implantação e manutenção de um sistema agroflorestal.

Facilitador do curso em todas as etapas, o engenheiro agrônomo Glaucinei Brissow Realto disse ter observado muitos resultados positivos na capacitação. “Não focamos só no plantio da agrofloresta, mas também em produção e alternativas ecológicas. Então unimos a sustentabilidade com a geração de renda, o que deixou os produtores bem interessados no curso”, explicou. Glaucinei aproveitou também a oportunidade e repassou noções alternativas de manejo da terra, como preparo e uso de compostagem e técnicas de controle de insetos que não utilizassem agrotóxicos ou produtos químicos.

“Vi que os agricultores entenderam o que é agrofloresta e sua importância. Muitos deles puseram em prática, em seus sítios, aquilo que víamos no curso. E eles querem manter este trabalho, dar continuidade e ampliar o alcance desta ideia”, disse o técnico.

Outro profissional envolvido no trabalho, o engenheiro florestal Ayslaner Gallo, também avaliou de forma positiva o curso. “Nossa parceria com o seu Daniel foi muito boa. Em poucos meses de trabalho, em apenas meio hectare, já tivemos colheita, venda e geração de renda. O ano de plantio ainda não terminou, mas os participantes do curso já visualizaram resultados bem sólidos e viram os benefícios que um sistema agroflorestal traz”, disse o especialista.

“Fiquei impressionada com o que vi”

Proprietária do sítio São Cristovão, no assentamento de Igarapé do Bruno, também na área rural de Apiacás, a agricultora Eva Moreira, 46, gostou da capacitação promovida pelo WWF-Brasil. “O treinamento foi ótimo. Aprendi muito e fiquei bastante empolgada. No início do curso plantamos algumas bananeiras que cresceram muito rápido nesses poucos meses. Fiquei impressionada com o que vi”, afirmou.

Eva contou ainda que vários colegas de curso levaram para suas propriedades os fundamentos dos sistemas agroflorestais – e ela própria começou a utilizar adubo orgânico em seu sitio, além de plantar, de novas maneiras, mudas de pequi, jatobá e bananas. “Achei muito interessante lidar, ao mesmo tempo, com a questão da conservação e da produção. As duas idéias não precisam estar separadas e, com certeza, isso vai ajudar todos aqueles que investem na produção rural em Apiacás”, declarou.

O analista de conservação do WWF-Brasil, Samuel Tararan, contou que existe uma grande satisfação em ver os agricultores se dedicando e aplicando os conhecimentos adquiridos ao longo do projeto em suas propriedades. “Isso é reflexo de uma parceria de sucesso. Todos ganham: o agricultor que aumenta a renda familiar através da produção com qualidade; o meio ambiente, com o aumento da biodiversidade no solo e, acima dele, a conservação dos recursos hídricos; além do próprio fortalecimento dos atores envolvidos. O grande desafio é multiplicar essas práticas sustentáveis pela região”, disse o especialista.


Fonte: WWF - Brasil


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