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Dorinha, uma catadora




Por Warner Bento Filho, de Natal (RN)

Maria das Dores Fernandes Alves da Silva tinha 17 anos quando embarcou num automóvel Ford Del Rey em Lagoa Salgada, no interior do Rio Grande do Norte, com destino à capital, Natal. O plano era voltar seis meses depois, tendo feito um curso de enfermagem, para trabalhar como parteira no hospital da cidade.  Mas está em Natal até hoje.

Em setembro, participou de oficina para a construção de plano de coleta seletiva, consumo responsável e reciclagem de Natal.  A oficina ocorre no âmbito do Programa Água Brasil, concebido pelo Banco do Brasil e desenvolvido em parceria com a Fundação Banco do Brasil, Agência Nacional de Águas e a organização ambientalista WWF-Brasil. 

Nem tudo ocorreu conforme o planejado na vida de Maria das Dores, desde que deixou Lagoa Salgada. Antes de terminar o curso, se apaixonou por um Soldado da Polícia Militar, com quem casaria, teria dois filhos e se tornaria dona de casa, proibida de trabalhar.

Hoje, o nome Maria das Dores ficou para trás. E todos a conhecem apenas por Dorinha. Ela sustenta a casa sozinha, faz cursos de capacitação, participa de seminários, tem um celular e recebe ligações de gente importante, como um juiz que quer a ajuda dela para reabilitar detentos.

O caminho que levou Maria das Dores a descobrir Dorinha estava ao lado do bairro Felipe Camarão, onde vivia e ainda vive: o lixão de Cidade Nova. 

O casamento de Maria das Dores com o Soldado da PM terminou e ela se viu sozinha em casa com as contas para pagar e dois filhos para criar: Alverton, então com 15anos, e Everton, com seis. Ela não tinha uma profissão, não tinha experiência profissional, não sabia o que fazer.

Um vizinho trabalhava no lixão, catando resíduos recicláveis, em meio a uma multidão desorganizada, onde havia inclusive crianças. A turba não parava nunca. O trabalho era feito de dia e de noite, sob chuva e sob sol, todos os dias, em meio a moscas, urubus e ratos. Mas aquilo era tudo para Maria das Dores. Ou para Dorinha.

“Meu marido não me deixava trabalhar e eu era muito dependente dele. Para mim, meu mundo terminava no muro da minha casa. Quando veio a situação, eu acordei. E dei de cara com o lixão”, conta.

Alguns anos depois, o lixão foi desativado. Um aterro sanitário foi construído e a coleta seletiva começou a ser implantada. As pessoas que trabalhavam no lixão foram transferidas para um galpão, receberam cursos de capacitação e formaram uma cooperativa, a Coopcicla.

Dorinha embarcou nessa onda. “Antes eu era conhecida como lixeira. Hoje, quando os amiguinhos do meu filho menor perguntam a ele o que eu faço, ele responde que trabalho na coleta seletiva, protejo o meio ambiente e sustento a casa”.

Em Natal, a coleta de resíduos recicláveis é feita pelos próprios catadores, com caminhões cedidos pela Prefeitura. Eles comercializam o material e agora passarão a receber também pelo serviço de coleta.

No trabalho como catadora de materiais recicláveis, Dorinha encontrou muito mais que o sustento para ela e a família. “Encontrei amizades e conquistas. Hoje todo mundo me conhece. Até juiz liga para mim. Ele me convidou para ajudar na reinserção de jovens apenados. Ele quer que estes presos trabalhem na cooperativa”, conta. 

“Antes eu nem tinha telefone. Agora o doutor me descobre pela coleta seletiva. Evoluí muito como pessoa. Por isso, me orgulho do meu trabalho. Sou uma pessoa que ajuda o meio ambiente, que ajuda a mudar o mundo. Tenho certeza que o futuro dos meus filhos e dos meus netos vai ser melhor por causa do meu trabalho”, completa.

Bilhetinho

O dia de Dorinha começa às 4h, quando toca o despertador. Ela levanta, prepara a comida, ajeita a casa, toma banho e sai para o trabalho às 6h. Às vezes, deixa um bilhetinho para o filho menor, hoje com 12 anos. “Mamãe te ama muito”. Caminha durante 40 minutos até chegar ao galpão. Lá, embarca num caminhão com sua turma e passa o dia recolhendo resíduos recicláveis nos bairros de Natal. Ou fica no galpão triando o material trazido pelas outras turmas. O trabalho, que começa perto das 7h, só termina entre as 16h e 17h, às vezes sem intervalo para o almoço. A renda dos cooperados chega a 340 ou 360 reais mensais, quando o caminhão não quebra. Recentemente, ficou 15 dias fora de operação, o que impediu que a coleta fosse feita. Sem renda, metade dos 61 cooperados da Coopcicla abandonaram o trabalho. Dorinha continuou.

Quando volta para casa, está tão cansada que não consegue fazer muita coisa e quando são sete ou sete e meia ela já está dormindo, à exceção dos dias em que assiste aos cultos da igreja evangélica do seu bairro. A rotina vai de segunda-feira a sábado. No domingo, depois do culto, Dorinha encontra tempo para preparar “um almocinho diferente, que é de lei”. Everton adora e diz que a mãe está na profissão errada. Deveria ter um restaurante. “Eu ainda chego lá”, responde Dorinha.

Perguntei a Dorinha se ela queria falar algo que eu não houvesse perguntado. Ela disse que gostaria de dizer que seria muito bom se conseguíssemos “mudar a mente das pessoas, que todo mundo fosse como numa cooperativa, para mudar a realidade do nosso planeta. Nem todo mundo está conscientizado da situação, do problema que representa a gente jogar uma garrafa pet na rua”.
As dificuldades são muitas, mas Dorinha é uma guerreira. “Não tenho medo de ir para uma guerra. Tenho medo de ser covarde e desistir no caminho”.

Tantos anos depois, a adolescente que saiu do interior do Rio Grande do Norte para estudar enfermagem na capital e foi tragada pelo destino, sente finalmente que realizou o sonho de trabalhar com saúde. “Nosso trabalho de coleta seletiva é da área da saúde pública. Ele evita a proliferação de doenças e evita muitas outras coisas”.


Fonte: WWF - Brasil


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