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Copa do mundo com os índios apiakás




Por Ana Cíntia Guazzelli, com Cláudio Maretti

A expectativa era geral. Meia hora antes de começar o jogo Brasil x Japão ainda não sabíamos se assistiríamos ou não à partida. Isso porque a pousada que nos receberia, a Jurumé, estava fechada, sem uma viva alma. Soubemos, mais tarde, que a responsável pelo empreendimento ficou sem suprimentos e resolveu ir embora. A informação veio de indígenas de uma pequena localidade formada por dissidentes dos índios apiakás que vivem na Terra Indígena Kayabi, localizada na margem direita do rio Juruena, próxima de onde estávamos, que abriram uma de suas casas para juntos assistirmos à vitória do Brasil sobre o Japão.

Em uma situação inusitada, lotamos a sala da cabana, coberta por palha e forrada com carpete. Isso mesmo! O chão da cabana tinha tapetes. Soube, depois, pela dona da habitação, Maria Ieda Ponhun, uma índia Muduruku, que eram sobras de garimpo, ganhadas por um de seus 10 filhos. Dos tapetes, o menino conseguiu retirar 250 gramas de sobras de ouro, que renderam parte do recurso utilizado para a compra da primeira TV do local, ligada hoje pela segunda vez.

Os integrantes da Expedição Juruena-Apuí não se intimidaram. Seguindo o costume da casa, deixaram os calçados na porta, e logo estavam espalhados por toda a sala. Visitantes e anfitriões vibravam a cada gol. Os olhos das crianças não se desviavam da tela. Já Roberto Dachê (que, segundo ele, na língua munduruku significa gavião), chefe substituto da comunidade, afirmou que pouco se interessa por futebol. “Eu só torço pro Brasil quando ele está ganhando”, disse, sem disfarçar o contentamento pela nova aquisição, mostrando a antena parabólica que completa o conjunto para transmissão.

Apenas 21 pessoas, de seis famílias apiakás moram no local. Todos aculturados, mas querendo se aprumar, inclusive reforçando suas tradições. Segundo Roberto, desde pequeno tem contato com brancos. Aos poucos, adquiriu seus modos e costumes e hoje já não fala o idioma dos seus pais, o munduruku, só entende, mas se arrepende. “Antes, tudo era só na flecha. Agora, perdemos nossa cultura e sofremos com isso. Gostaria que tudo voltasse como era antigamente”. Para comprar os produtos industrializados que já fazem parte do seu cotidiano, como café, açúcar e arroz, ele conta com o salário da esposa, que trabalha como agente de saúde, com a venda de galinhas e de melancia. Da floresta, retira castanha, coco do babaçu, látex, caça e pesca.

Roberto garante que os apiakás são os verdadeiros donos das terras que ocupam desde setembro do ano passado. No local de onde eles saíram, uma aldeia do outro lado do pontal, próximo ao rio Teles Pires, havia conflitos com os kayabis. Já deste lado do pontal, onde ele agora se instalou há menos de um ano, ainda ninguém veio mexer com eles. Quem os orientou, segundo o líder, foi o procurador do Ministério Público Federal e o presidente do Incra, em Cuiabá, cujos nomes foram esquecidos.

Quanto à criação do parque, a exemplo dos garimpeiros do Juruena, os índios apiacás também tomaram conhecimento através da Rádio Nacional, mas não têm clareza de como a nova unidade de conservação poderá interferir em suas vidas. Ele não sabia que a terra que hoje ocupam pertence agora ao Parque Nacional do Juruena, mas garante que para eles, indígenas, não lhes interessa “esse negócio de fazenda. O que queremos é o verde”.

Depois do jogo voltamos para a pousada. Era hora de se instalar. Hoje foi o último dia que passamos por cachoeiras e corredeiras do rio Juruena. Amanhã, o grupo se divide. Parte vai a tribo dos kayabis, no rio Teles Pires, outros saem cedo para suas pesquisas e a terceira fica na pousada Jurumé, aguardando para ser transportada para Terra Preta. Depois de amanhã, iniciaremos a terceira e última etapa da expedição, no Parque Estadual do Sucunduri, parte do Mosaico de Apuí, no Amazonas.


Fonte: WWF - Brasil


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