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Acre: Manejo de pesca conserva ecossistemas e aumenta renda de pescadores




Em projeto coordenado por WWF-Brasil e governo do estado do Acre, pescadores criam regras para disciplinar a atividade, gerando resultados de conservação e de inclusão social

Por Bruno Taitson, de Manoel Urbano (AC)

A Terceira Feira do Pirarucu Manejado, realizada no município acreano de Manoel Urbano, entre 21 e 23 de agosto, demonstrou os resultados positivos do projeto de manejo do pirarucu (Arapaima gigas), o maior peixe de água doce do planeta. No evento, pescadores locais puderam comercializar alimentos e objetos de artesanato elaborados a partir da espécie, que vinha desaparecendo da região no início desta década.

O projeto, que consiste em treinar e capacitar pescadores para manejar o pirarucu de forma ambientalmente adequada, gerou acordos de pesca, que são regras elaboradas pelos moradores locais com objetivo de assegurar, em longo prazo, a sobrevivência da espécie e a viabilidade econômica da atividade pesqueira. Os principais resultados diretos são o aumento da produtividade dos lagos, o crescimento da produção de pirarucu nos lagos manejados, o repovoamento, com casais da espécie em lagos onde o peixe havia desaparecido e o consequente aumento da renda dos pescadores.

Pedro de Nascimento, pai de oito filhos, relata que sua renda com a pesca aumentou mais de 50% após sua entrada, em 2007, no grupo de manejadores que participa do projeto do pirarucu. “Antes, demorava de dois a três dias em Manoel Urbano para vender 60 quilos de peixe, e muitas vezes levava prejuízo. Agora a gente ganha muito mais”, diz.

O pescador destaca que, antes da implementação dos acordos de pesca, havia poucos peixes e a atividade era cercada de incertezas. “Havia gente pescando dia e noite, com malhadeiras de todos os tamanhos. Estavam acabando com os peixes”, relata, salientando que as regras ajudaram a garantir a sustentabilidade da pesca nos lagos.

Os primeiros registros de escassez do o pirarucu, importante fonte de renda e de proteínas para populações ribeirinhas do alto rio Purus (AC), aconteceram a partir de 2001. Diante de uma demanda das colônias de pescadores dos municípios de Sena Madureira e Manoel Urbano, o WWF-Brasil e o governo do Estado, por intermédio da Secretaria de Extensão Agroflorestal e Produção Familiar (Seaprof), elaboraram um projeto conjunto para o manejo da pesca.

Em 2003, o manejo do pirarucu foi aplicado como piloto no Lago Santo Antônio (Manoel Urbano). Dados levantados ao longo do projeto indicam que a produtividade dos lagos cresceu, em média, 140%. Atualmente, acontece também nos lagos Novo, Grande e Novo Destino, no mesmo município. Além disso, começa a ser implantado em comunidades ribeirinhas e terras indígenas também no Acre, nas bacias dos rios Envira e Tarauacá.

Mais tempo livre


Geraldo Bispo mora na região dos lagos de Manoel Urbano há quase 40 anos e participa do manejo do pirarucu desde o início do projeto, em 2002. Ele relata que, atualmente, com a melhoria da produtividade na pesca, tem mais tempo para se dedicar à agricultura. “Antes, precisava de mais de 30 peixes para dar o peso de um quilo. Hoje, 12 peixes já pesam um quilo. Em menos de duas horas consigo pescar o que preciso para a subsistência”, relata.

O pescador, que tem nove filhos – a mais nova com 14 anos – acrescenta que, com o projeto, não só as populações de pirarucus aumentaram, mas também as dos demais pescados da região, como o mandi e a branquinha.”O manejo está funcionando”, avalia Geraldo Bispo.

Os impactos positivos em outras espécies, relatados por Geraldo Bispo, são de grande importância socioeconômica para a região. Os peixes branquinha (Charex gibbosus), mandi (Pimelodus spp.) e filhote (Brachyplathystoma filamentosum) respondem por 65% do volume capturado nos lagos de Manoel Urbano. “A presença em abundância do pirarucu, espécie que fica no topo da cadeia alimentar, é um significativo indicador de conservação dos ecossistemas aquáticos, por demonstrar que não há escassez das demais espécies”, esclarece Antonio Oviedo, técnico do WWF-Brasil responsável pelo projeto.

Além do mais, por ser um peixe sedentário, o pirarucu só permanece em locais bem conservados. Assim, é possível dizer que sua presença sinaliza a conservação da vegetação às margens do lago, bem como abundância de microrganismos na água e uma atividade de pesca dentro de padrões de sustentabilidade.

Mudança de atitude

Carlos Leopoldo, técnico da Seaprof responsável pelo projeto, observa que os lagos de Manoel Urbano estão em uma região delicada, que sofre impactos ambientais a partir do asfaltamento da BR-364 e de assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). “Em sete anos de projeto, temos conseguido mudar a atitude da população local em relação ao meio ambiente. Hoje eles têm a clara percepção de que o recurso natural precisa ser utilizado de forma sustentável”, destaca.

Organizada anualmente, a Feira do Pirarucu Manejado incrementa a renda dos pescadores e do comércio local, informa a população a respeito de questões ambientais e também leva entretenimento a moradores e visitantes. Durante a feira foram comercializados diversos produtos derivados do pirarucu, desde o filé (conhecido como manta) até peças artesanais confeccionados com as escamas do peixe.

Para a feira, foram capturados, com autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), 17 pirarucus, que pesaram cerca de 1,8 tonelada. Até o final de setembro, os pescadores poderão pescar mais 22 unidades, atingindo o total de 30% do estoque de pirarucu nos quatro lagos manejados.. O percentual é estabelecido de forma participativa de acordo com critérios ambientais. Em 2007, na primeira edição da feira, o volume pescado foi de uma tonelada.

Para o pesquisador Marcelo Crossa, que atua como consultor no projeto, é preciso seguir investindo em capacitação e pesquisa, para que se acumule um maior volume de conhecimento a respeito do pirarucu e, principalmente, do comportamento do peixe em cabeceiras de grandes rios da bacia amazônica, como é o caso do rio Purus. “São características diferentes daquelas manifestadas no médio e baixo Amazonas”, explica.

Marcelo Crossa acrescenta que o principal desafio do projeto é promover o equilíbrio entre as necessidades ambientais, sociais e econômicas. “Isso demanda pesquisa e modelos de uso adaptativo dos recursos, além de treinamento de técnicos, gestores e pescadores nas regiões onde o manejo é aplicado”, conclui.


Fonte: WWF - Brasil


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